sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Homeschooling: a polêmica continua (parte 2)

Crianças brasileiras estão protegidas do modelo “homeschooling”
Por Thelma Torrecilha *

Ainda bem que a legislação brasileira e o Estatuto da Criança e do Adolescente impedem que o o modelo “homeschooling” avance por aqui. E para a educação domiciliar virar moda no Brasil seria necessário muito mais do que uma batalha jurídica.

Na nossa cultura, a escola está no topo das prioridades da infância. O país quer e precisa melhorar a qualidade do ensino para oferecer uma boa escola para todos. Mesmo enquanto isso não acontece, nada justifica privar a criança de frequentar um espaço fundamental para o desenvolvimento humano.

O que mais chama a atenção, é que esses pais que se dizem tão mais preparados para transmitir conhecimento parecem desconhecer o que é a escola. Se estivessem realmente preocupados com o futuro acadêmico dos filhos, poderiam criar uma rotina saudável de debater, ampliar e aprofundar o que eles levassem da escola para casa.

Muito além de ensinar o conteúdo das várias disciplinas, a escola, boa ou ruim, é onde as crianças e adolescentes passam parte muito importante da vida. E, por pior que seja a instituição onde estudou, é difícil encontrar quem não lembre com alegria e ternura dos bons tempos de escola.

É lá que a criança aprende a ler e a escrever a sua própria história. Longe dos pais, é um lugar onde experimenta o seu jeito de ser social, de arrumar e de solucionar problemas, de conquistar resultados e de encarar frustações, de conviver com quem gosta e com quem não gosta. A criança é exposta a regras, compromissos e consequências. São tantas coisas no vaivém da escola para a casa, uma riqueza de possiblidades para acumular conhecimento e desenvolver mecanismos para contornar, enfrentar e vencer dificuldades.

Que pais acreditam saber mais e melhor do que um conjunto de professores, funcionários e alunos? Que pais acreditam que podem preparar melhor do que os saberes, as culturas, as amizades, os conflitos, os desafios, os erros, os acertos, as alegrias, as tristezas, os equívocos, as limitações, os avanços, as cores e cheiros de toda uma comunidade escolar?

É muita arrogância desses pais achar que podem privar os filhos de tudo isso porque sabem mais e são capazes de ensinar mais às crianças e adolescentes. As meninas de Serra Negra fazem natação, balé, piano, treinam tênis, são bilíngues em português e inglês. Os irmãos de Maringá cursam inglês e matemática fora de casa. Nem com tudo isso os pais substituem a escola, universo de oportunidades.

* Jornalista, especialista em comunicação social e educação, autora do blog Educar e Cuidar e da coluna Palavra de Mãe, no Ig.

3 comentários:

Rodrigo disse...

Thelma,

Com a mesma quantidade de respeito que demonstrou aos referidos pais, reputo arrogante o seu pensamento de não tolerar que as pessoas possam oferecer uma filosofia de vida alternativa à que se tem.

As escolas, do jeito que são, não contribuem tanto assim para que o mundo melhore. Elas fazem parte do esquema de preservação do status quo em que os recursos disponíveis são para poucos; o Estado se apresenta como essencial à humanidade; exércitos são considerados necessários; e a cobrança de juros extorsivos é inerente à recompensa pelos esforços de quem se destaca.

Eu não acredito nessas coisas, mas fique à vontade para continuar acreditando.

Ricardo Maffeis disse...

Um leitor que assina "João" deixou um comentário ao artigo, que, editado por mim, é o seguinte:

"Concordo com o Rodrigo, a autora até mesmo reconhece a vida cultural superior dos jovens afortunados em serem educados sob o homeschooling, mas num acesso de inveja solta essa pérola: 'Nem com tudo isso os pais substituem a escola, universo de oportunidades'. A escola lhe dá a oportunidade de ser como a autora."

barbaresco disse...

A minha escola sempre foi horrível. Sempre fui colocado na marra para a escola. Depois,ia contrariado devido a necessidade de um diploma, para conseguir entrar na universidade. Quanto tempo massante, quantas agressões sofri. E isto ocorreu nos malditos 11 anos de ensino fundamental e segundário. Essas experiências não gostaria para criança alguma.
Quem me dera, na minha época eu precisasse apenas fazer avaliações para verificar meus conhecimentos.